October 16, 2009 5

Quoting MEC – Ser de Braga, é assim mesmo

By in Braga

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«Braga é fantástico. Às vezes, fica-se com a impressão que é Braga que
deveria mandar neste país. Veio do Sporting de Braga o treinador que
está a salvar o Benfica. Mas, mesmo sem esse treinador, o Sporting de
Braga está em primeiro lugar.
Acho que o Sporting de Braga é o único clube de que todos os
portugueses gostam secretamente. Os benfiquistas acham que eles são do
Benfica; os do Sporting apontam para o nome e os portistas, por muito
que lhes custe, são nortenhos e não se pode ser nortenho sem gostar de
Braga.
Toda a gente tem medo – e com razão – do Sporting de Braga. Há a mania
de engraçar com a Académica de Coimbra ou com o Belenenses, mas são
amores fáceis, que não fazem medo nem potenciam tragédias.
O Sporting de Braga não se presta a essas condescendências simpáticas.
É por ser temido que o admiramos. Mais do que genica, tem brio. É uma
atitude com que se nasce; não se pode ensinar nem aprender.
A primeira vez que fui a Braga já estava à espera de encontrar uma
cidade grande e diferente de todas as outras. Mas fiquei siderado.
Acho que Braga se dá a conhecer a quem lá entra, sem receios ou
desejos de impressionar.
A primeira impressão foi a modernidade de Braga – pareceu-me Portugal,
mas no futuro. E num futuro feliz. O Porto e Lisboa são mais
provincianos do que Braga; tem mais complexos; tem mais manias; tem
mais questiúnculas por resolver e mais coisas para provar.
Braga fez-me lembrar Milão. É verdade. Eu adoro Milão mas Milão é
(mais ou menos) Italiano, enquanto Braga é descaradamente português.
Havia muitas motas; muitas luzes; muita alegria; muito à-vontade.
Lisboa e Porto digladiam-se; confrontam-se; definem-se por oposição
uma à outra. Braga está-se nas tintas. E Coimbra – que é outra cidade
feliz de Portugal – também é muito gira, mas não tem o poderio e a
prosperidade de Braga.
Em Braga, ninguém está preocupado com a afirmação de Braga em
Portugal ou no mundo. Braga já era e Braga continua a ser. Sem ir a
Roma, só em Braga se compreende o sentido da palavra “Augusta”. Em
contrapartida, na Rua Augusta, em Lisboa, não há boa vontade que
chegue para nos convencer que o adjectivo tenha proveniência romana. A
Rua Augusta é “augusta” como a Avenida da Liberdade é da “liberdade” e
a Avenida dos Aliados é dos “aliados”, mas Braga é augusta no sentido
original, conferido pelo próprio Augusto.
Em Braga, a questão de se “comer bem” ou “comer mal” não existe.
Come-se. E, para se comer, não pode ser mal. Pronto. Em Lisboa, por
muito bem que se conheçam os poucos bons restaurantes, está-se sempre
à espera de uma desilusãozinha.
No Porto, apesar de ser difícil, ainda se consegue arranjar alguma
ansiedade de se ser mal servido; de ir a um restaurante desconhecido
e, por um cósmico azar, comer menos do que bem. Em Braga isso é
impossível. O problema da ansiedade não existe. Braga tem tudo. Passa
bem sem nós. Mas nós é que não passamos sem ela, porque os bracarenses
ensinam-nos a não perder tempo a medir o comprimento das pilinhas uns
dos outros ou a arranjar termómetros de portuguesismo ou de
autenticidade.
É por isso que o Sporting de Braga está à frente. Não é por se chamar
Sporting. Não é por ter cedido o treinador ao Benfica. O Benfica
ganhou muito com isso. Mas é o Sporting de Braga que está à frente.
É por ser de Braga. É uma coisa que, infelizmente, nem todos nós podemos ser.
Fique então apenas a gentileza de ficar aqui dito de ter pena de não ser.»

Miguel Esteves Cardoso, na revista de ‘O Jogo’

Fotografia de  JSome1’s.

5 Responses to “Quoting MEC – Ser de Braga, é assim mesmo”

  1. li says:

    “O Norte” por Miguel Esteves Cardoso

    «Primeiro, as verdades.
    O Norte é mais Português que Portugal.
    As minhotas são as raparigas mais bonitas do País.
    O Minho é a nossa província mais estragada e continua a ser a mais bela.
    As festas da Nossa Senhora da Agonia são as maiores e mais impressionantes que já se viram.
    Viana do Castelo é uma cidade clara. Não esconde nada. Não há uma Viana secreta. Não há outra Viana do lado de lá. Em Viana do Castelo está tudo à vista. A luz mostra tudo o que há para ver. É uma cidade verde-branca. Verde-rio e verde-mar, mas branca. Em Agosto até o verde mais escuro, que se vê nas árvores antigas do Monte de Santa Luzia, parece tornar-se branco ao olhar. Até o granito das casas.

    Mais verdades.
    No Norte a comida é melhor.
    O vinho é melhor.
    O serviço é melhor.
    Os preços são mais baixos.
    Não é difícil entrar ao calhas numa taberna, comer muito bem e pagar uma ninharia.

    Estas são as verdades do Norte de Portugal.
    Mas há uma verdade maior.
    É que só o Norte existe. O Sul não existe.
    As partes mais bonitas de Portugal, o Alentejo, os Açores, a Madeira, Lisboa, et caetera, existem sozinhas. O Sul é solto. Não se junta.
    Não se diz que se é do Sul como se diz que se é do Norte.
    No Norte dizem-se e orgulham-se de se dizer nortenhos. Quem é que se identifica como sulista?
    No Norte, as pessoas falam mais no Norte do que todos os portugueses juntos falam de Portugal inteiro.
    Os nortenhos não falam do Norte como se o Norte fosse um segundo país.
    Não haja enganos.
    Não falam do Norte para separá-lo de Portugal.
    Falam do Norte apenas para separá-lo do resto de Portugal.
    Para um nortenho, há o Norte e há o Resto. É a soma de um e de outro que constitui Portugal.

    Mas o Norte é onde Portugal começa.
    Depois do Norte, Portugal limita-se a continuar, a correr por ali abaixo.
    Deus nos livre, mas se se perdesse o resto do país e só ficasse o Norte, Portugal continuaria a existir. Como país inteiro. Pátria mesmo, por muito pequenina. No Norte.
    Em contrapartida, sem o Norte, Portugal seria uma mera região da Europa. Mais ou menos peninsular, ou insular.

    É esta a verdade.

    Lisboa é bonita e estranha mas é apenas uma cidade. O Alentejo é especial mas ibérico, a Madeira é encantadora mas inglesa e os Açores são um caso à parte. Em qualquer caso, os lisboetas não falam nem no Centro nem no Sul – falam em Lisboa. Os alentejanos nem sequer falam do Algarve – falam do Alentejo. As ilhas falam em si mesmas e naquela entidade incompreensível a que chamam, qual hipermercado de mil misturadas, Continente.

    No Norte, Portugal tira de si a sua ideia e ganha corpo. Está muito estragado, mas é um estragado português, semi-arrependido, como quem não quer a coisa.

    O Norte cheira a dinheiro e a alecrim.

    O asseio não é asséptico – cheira a cunhas, a conhecimentos e a arranjinho. Tem esse defeito e essa verdade.

    Em contrapartida, a conservação fantástica de (algum) Alentejo é impecável, porque os alentejanos são mais frios e conservadores (menos portugueses) nessas coisas.

    O Norte é feminino.
    O Minho é uma menina. Tem a doçura agreste, a timidez insolente da mulher portuguesa. Como um brinco doirado que luz numa orelha pequenina, o Norte dá nas vistas sem se dar por isso.

    As raparigas do Norte têm belezas perigosas, olhos verdes-impossíveis, daqueles em que os versos, desde o dia em que nascem, se põem a escrever-se sozinhos.
    Têm o ar de quem pertence a si própria. Andam de mãos nas ancas. Olham de frente. Pensam em tudo e dizem tudo o que pensam. Confiam, mas não dão confiança. Olho para as raparigas do meu país e acho-as bonitas e honradas, graciosas sem estarem para brincadeiras, bonitas sem serem belas, erguidas pelo nariz, seguras pelo queixo, aprumadas, mas sem vaidade. Acho-as verdadeiras. Acredito nelas. Gosto da vergonha delas, da maneira como coram quando se lhes fala e da maneira como podem puxar de um estalo ou de uma panela, quando se lhes falta ao respeito. Gosto das pequeninas, com o cabelo puxado atrás das orelhas, e das velhas, de carrapito perfeito, que têm os olhos endurecidos de quem passou a vida a cuidar dos outros. Gosto dos brincos, dos sapatos, das saias. Gosto das burguesas, vestidas à maneira, de braço enlaçado nos homens. Fazem-me todas medo, na maneira calada como conduzem as cerimónias e os maridos, mas gosto delas.

    São mulheres que possuem; são mulheres que pertencem. As mulheres do Norte deveriam mandar neste país. Têm o ar de que sabem o que estão a fazer. Em Viana, durante as festas, são as senhoras em toda a parte. Numa procissão, numa barraca de feira, numa taberna, são elas que decidem silenciosamente. Trabalham três vezes mais que os homens e não lhes dão importância especial. Só descomposturas, e mimos, e carinhos.

    O Norte é a nossa verdade.

    Ao princípio irritava-me que todos os nortenhos tivessem tanto orgulho no Norte, porque me parecia que o orgulho era aleatório. Gostavam do Norte só porque eram do Norte. Assim também eu. Ansiava por encontrar um nortenho que preferisse Coimbra ou o Algarve, da maneira que eu, lisboeta, prefiro o Norte. Afinal, Portugal é um caso muito sério e compete a cada português escolher, de cabeça fria e coração quente, os seus pedaços e pormenores.

    Depois percebi.

    Os nortenhos, antes de nascer, já escolheram. Já nascem escolhidos. Não escolhem a terra onde nascem, seja Ponte de Lima ou Amarante, e apesar de as defenderem acerrimamente, põem acima dessas terras a terra maior que é o “O Norte”.
    Defendem o “Norte” em Portugal como os Portugueses haviam de defender Portugal no mundo. Este sacrifício colectivo, em que cada um adia a sua pertença particular – o nome da sua terrinha – para poder pertencer a uma terra maior, é comovente.

    No Porto, dizem que as pessoas de Viana são melhores do que as do Porto. Em Viana, dizem que as festas de Viana não são tão autênticas como as de Ponte de Lima. Em Ponte de Lima dizem que a vila de Amarante ainda é mais bonita.

    O Norte não tem nome próprio. Se o tem não o diz. Quem sabe se é mais Minho ou Trás-os- Montes, se é litoral ou interior, português ou galego? Parece vago. Mas não é. Basta olhar para aquelas caras e para aquelas casas, para as árvores, para os muros, ouvir aquelas vozes, sentir aquelas mãos em cima de nós, com a terra a tremer de tanto tambor e o céu em fogo, para adivinhar.

    O nome do Norte é Portugal. Portugal, como nome de terra, como nome de nós todos, é um nome do Norte. Não é só o nome do Porto. É a maneira que têm e dizer “Portugal” e “Portugueses”. No Norte dizem-no a toda a hora, com a maior das naturalidades. Sem complexos e sem patrioteirismos. Como se fosse só um nome. Como “Norte”. Como se fosse assim que chamassem uns pelos outros. Porque é que não é assim
    que nos chamamos todos?»

  2. Ric Jo says:

    Porra, grande texto, li. Em todos os sentidos da palavra! 🙂

  3. li says:

    desculpa, r.c. fui levada pelo meu orgulho nortenho 😉

  4. Sérgio Bruno says:

    Literalmente bons olhos vejam de novo este pedacinho de palavras sobre Bracara Augusta (devido ao belíssimo cenário que escolheste)… Abraço! 😉

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