Por este lado do Atlântico não é costume assistir-se a este tipo de coisas. Por estes lados, a fidelidade é algo que costuma imperar entre as associações e as suas localidades. Consegue-se sempre ultrapassar os casos pontuais de zanga e até as traições se perdoam. As associações são geralmente a cara mais pública das suas localidades e costuma-se até confundir uma com a outra – veja-se por exemplo o caso dos Lisboetas que só querem ver o Porto a arder e vice-versa.
Mas do lado de lá do Atlântico, na terra de todas as oportunidades, a mesma relação é mais fria e mais racional. Em campeonatos cujas equipas já há muito são meras empresas (algo que a bola só começou a acompanhar há uma década) e onde o objectivo principal (único?) é fazer-se dinheiro, veja-se por exemplo os inúmeros casos na NBA em que as equipas (denominadas precisamente de franchises) não prestam grande legião à cidade e mudam de casa, movidos única e simplesmente por razões financeiras: os Seattle Supersonics mudaram-se em 2008 para Oklahoma, denominando-se desde então de Oklahoma City Thunder. Ou os Vancouver Grizzlies, que em 2001 se mudaram de armas e bagagem para Memphis, passando a chamar-se de Memphis Grizzlies.
Deste lado de cá, são muito poucos os casos em que tais situações se deram. Em Inglaterra, o Wimbledon Football Club em 2004 foi relocalizado (à revelia extrema dos seus adeptos) para Milton Keynes, situando-se a imensas milhas de distância e passando a chamar-se Milton Keynes Dons. Na Áustria, dado o patrocínio e eventual compra do SV Austria Salzburg (os Sportinguistas devem-se lembrar bem deste clube) pela Red Bull, este passou a chamar-se de FC Red Bull Salzburg, mudando de emblema e de cores de equipamentos. Os exemplos nos States são imensos e pela Europa menores, mas chamem-me de romântico ou conservador, são situações que por muito ou poucos que sejam, me desagradam sobremaneira.
Deu-se o caso (inédito?) agora de um clube Português também pegar nas malas e mudar de casa. A União de Leiria, após várias tentativas falhadas de chegar a acordo com a empresa que gere essa megalomania que é o Estádio Magalhães Pessoa em Leiria – Leirisport, decidiu mudar-se para Torres Novas, onde a Câmara local lhes fornece complexos desportivos gratuitamente. Apesar de o clube ser mal amado pela cidade de Leiria, não tendo geralmente mais que 1000 espectadores em média por partida e tendo pouquíssimo apoio inato das gentes da cidade e do concelho (Leiria deve ser a cidade menos bairrista de Portugal, disso não tenho dúvidas), a União de Leiria acabava no entanto por ser um representante bastante honroso e vantajoso para Leiria a nível nacional, tendo conseguido ao longo dos anos excelentes classificações no campeonato nacional de futebol e tendo inclusivamente jogado na Europa. E tudo isto com orçamentos sempre extremamente baixos. E apesar da pouca paixão existente pelo clube, quem vivia na região sabia perfeitamente do seu peso grande e do quão conceituado era jogar nas camadas jovens do clube, por exemplo.
Torres Novas acaba por ganhar com tudo isto, tendo agora um evento que, pelo menos nos jogos do SL Benfica e FC Porto, irão com certeza atrair muita gente à cidade e ajudar a economia local. Leiria fica a perder, porque para além das perdas das receitas da economia local nos mesmos jogos citados em cima, ficam nas mãos com um enorme problema – uma megalomania de um estádio que de útil nada tem e um problema que vem claramente condenar uma política populista e claramente irresponsável dos vários governos que antes e durante o evento do Euro 2004 tiveram o destino de Portugal nas mãos. As únicas saídas possíveis agora para o edil Leiriense são apenas duas: deixar o estádio Magalhães Pessoa apodrecer com o tempo (de onde virá agora o dinheiro para a manutenção de tal instalação?) ou proceder à sua demolição e eventual loteamento e venda dos seus terrenos valiosos. Pessoalmente prefiro a primeira opção, de maneira a que todas as gerações vindouras tenham ali um monumento em honra ao desgoverno de Portugal, utilizando o seu exemplo como excepção daqui em diante e não como regra.
Mas mal comece a bola a correr, tudo isto será irrelevante e só interessará às gentes os golos que o Fábio Coentrão ou o Hulk consigam marcar no Estádio Municipal Dr. António Alves Vieira. Assim o povo queira. Assim seja então.
Ler a notícia sobre a mudança da União de Leiria para Torres Novas
Ler o comunicado da União de Leiria
*Este artigo está a ser replicado algures por aí. Mas ainda não é tempo de desvendar onde. Watch this space.