Ando aqui a arrumar as malas para o regresso à base de amanhã, benzido pelo autêntico sol (e temperaturas) de primavera que acabei por encontrar por cá – ao agarrar no gorro e nas luvas que me foram fulcrais na partida de Londres e sem os quais teria congelado, faz-me espécie pensar que passarei novamente a ter de usá-los dentro de umas horas – e isto tudo ao som do programa de autor Costa a Costa de Pedro Costa e José Paulo Alcobia na Antena 3. Acima de tudo, este pequeno gesto demonstrou-me que o Ricardo que partiu de Portugal não é (obviamente) aquele que cá está de férias neste momento. E não me estou a referir a qualquer coisa etéreo ou muito pesado: refiro-me, neste caso, ao som e à música que me vai acompanhando ao longo da vida. Recordo-me que para os lados de 2006 e 2007, de cada vez que me cruzava com o Costa a Costa na sintonia da rádio, não aguentava por lá mais de 5 minutos. ‘Música para cotas’, catalogava eu assim o programa. A imagem que me vinha à cabeça era daquele motard frustrado, que comprou a mota, o casaco de cabedal e o capacete, mas que não tem estradas para a conduzir como deve ser nem sequer pinta para a montar.
Pois, mas os tempos mudam. Aliás, mudamos nós com os tempos. Se eu passei a cota ou motard frustrado, não sei. Mas sei que tudo o que tenho ouvido ao longo destas duas horas de programa têm sido um grande regalo. Um programa marcadamente blues, no Costa a Costa somos conduzidos pela “música que o Tempo não soube apagar”, como está descrito no site do programa. O som que teve o seu auge nas décadas de 60 e 70, mas cujas origens advêm de África e consequentemente dos escravos e descendentes de escravos residentes maioritariamente no sul dos EUA, concretamente nos estados do Mississipi, Alabama, Geórgia e Louisiana, o blues está na base da larga maioria do som que oiço desde dos meus 14 anos, desde dos Nirvana, passando pelo Beck e acabando nos Cold War Kids.
Esta manhã tenho tido a companhia de George Harrison, Grateful Dead, Neil Young, Rolling Stones, Bruce Springsteen, Bob Seger, Fleetwood Mac, Bob Dylan e Led Zeppelin, entre muitos outros. Não podia estar acompanhado de gente melhor que isto. A verdade é que se a minha paixão se foca no rock e nas suas várias vertentes, mais concretamente no indie, não posso nem devo descurar tudo o que vem atrás e que está na base de tudo que oiço hoje. As próprias jam sessions a que dei início com a minha banda (posso catalogá-la como tal?) há precisamente um ano foram todas elas fundadas no blues, e isto de forma completamente espontânea.
Com tudo isto e feito que está o meu primeiro devaneio de 2011, resta-me o sonho de um dia poder fazer uma viagem pelos estados do sul dos States em busca das raízes deste som, acompanhado por quem vive com a mesma paixão este mundo, por várias guitarras e por Southern Comfort (único Whisky que me cai no goto), na sombra das viagens da geração beat de Kerouac. Clichés? So fucking what.
Bom ano e bons sons.

força aí meu caro. mais um interessantíssimo post. hoje foram 3 de uma só vez!
Gostei de ler… a “banda”… nice!!!
daqui o gajo do “trem”
abraço
Muito grato pelas palavras, sô Alfredo.
Eheh, o trem. Banda, conjunto, colectivo ou simplesmente amigos, a gramática é de pouca importância. Importante mesmo é que se faça. Bem ou mal, também pouco importa. Importa é fazer!
Abraço aos dois!