Ontem trabalhei a partir de casa e das últimas vezes que o tenho feito, tenho trocado a minha banda sonora habitue por outros sons, dado talvez a saturação de nova música com que tenho sido inundado. Apetece-me dar um passo atrás e respirar, ouvindo tudo aquilo que já se fez over and over again, em vez de estar constantemente com os olhos postos no futuro e naquilo que se está actualmente a fazer. Já tenho saudades de cantarolar a letra de uma canção do início ao fim e de olhos fechados. Uma sensação cada vez mais rarefeita.
Parte desse sentimento tem-me levado a, entre outras coisas, escutar duas rádios de forma constante enquanto vou trabalhando: a Rádio Amália (sou cada vez mais adepto do fado) e… a Rádio M80. Soube apenas da existência deste último aquando da minha última passagem por Portugal, depois de uma recomendação da parte da minha mãe e do maior saudosista (e um dos meus maiores amigos) que conheço. Dadas as recomendações, não peguei no bicho imediatamente, pois sabia que dali vinha imensa publicidade, imenso mainstream e imenso feel-good vibe à lá RFM & Cª. com que não posso. Mas confesso que tinha ficado curioso com a dica de que nesta rádio se dedicavam a enquadrar as canções nos seus respectivos álbuns e épocas, algo que faço de forma constante no Plutão Anão e que poucas vezes se ouve nas rádios de hoje em dia, tirando as honrosas excepções dos poucos programas de autor ainda existentes nas ondas do FM. E assim sendo, e porque a música é sempre mais forte que tudo, lá dei início à viagem e a conclusão a que cheguei é que é-me bastante preocupante a quantidade de canções de encher o ouvido a que conheço as letras de cor e salteado. E falo aqui de nomes de artistas que de tão cheesy que são, que nem sequer tenho coragem de os reproduzir aqui. E isto misturado com o tal feel-good vibe que desconfiava existir (e que ficou visto que existe), foram logo argumentos para que desligasse para sempre a tal M80. Mas nem tudo na vida é straight-forward e muito menos quando se trata de música e muito menos ainda quando esta regula, de forma tão instintiva e intrínseca, os teus sentimentos. E é um facto de que fui criado por entre toda aquela música pop dos anos 80 e contra isso não há nada a fazer. E é um facto ainda maior de que me regalo ao voltar a ouvir certos hits e one-hit-wonders das décadas de 70, 80 e 90. Não o consigo negar nem contrariar. E como tal, faço ouvido-cego à publicidade, ao enjoativo feel-good vibe, às repetições constantes e até a alguns erros factuais (como uma rádio nacional consegue dar os parabéns ao teclista dos Pink Floyd – Richard Wright – já depois deste ter falecido há quase três anos is beyond me). A música e a (de facto existente) contextualização dos temas são pelo menos dois aspectos positivos que, pelo menos para já, me leva a deixar a vergonha de lado e a escutar sem preconceitos.