
Dados os quilómetros que Braga distava de Ourém, passei a ser frequente utilizador dos comboios a partir do ano em que entrei para a universidade. E desde então comecei a ganhar um fascínio pelas estações de comboios que ia conhecendo Portugal-a-fora. Nunca fui amante de comboios ou coisa que lhe valesse, mas por alguma razão sempre admirei (e continuo a admirar) a imagem de uma linha de comboio a perfurar uma paisagem. Afirmação por ventura ecologicamente pouco correcta, mas uma verdade nonetheless. E ligado a uma linha de comboio, associo sempre a noção de viajar no tempo. Daí não consigo tirar nenhuma ilação que justifique tal coisa (tirando o facto óbvio das linhas de comboio serem sinónimos de viagem). Mas olhando para trás – bem lá para trás – um dos primeiros fascínios grandes que tive com uma linha de comboio foi no filme de River Phoenix em 1986 – ‘Stand By Me’ – baseado num conto de Stephen King. Nesse conto, que tão bem retrata o quão desprovido de acção e afazeres que um Verão intenso de calor pode ser para um grupo de crianças/adolescentes, o grupo de rapazes liderados por River Phoenix segue linha de comboio fora, acompanhados de perto pelos fortes raios solares, o cantar dos grilos, a poeira da terra e as sombras dos pinheiros (quatro elementos bases dos meus verões no Alqueidão na década de 80 & início de 90), em busca de uma aventura (que acabaram por ter). E é neste filme, que figura no top dos meus vários all-time favourite movies, onde creio que fui buscar este fascínio àqueles anos todos atrás.
Tendo vivido no norte de Portugal em metade da minha existência em Portugal, tive a felicidade de em cruzar com imensas estações de comboios (activas e desactivadas). Muitas delas sempre ligadas a momentos de grande conforto psicológico. Ou porque era no comboio que naquela sexta-feira iria regressar à terra depois de um ou dois meses de exílio, ou porque era no comboio que iria regressar ao tão adorado exílio minhoto, depois do carregamento de baterias na terrinha, ou porque era o comboio que me iria levar às cidades de exílio de outros meus amigos espalhados pelo pais (do Mondego para cima, diga-se) de maneira a proporcionar – certamente – umas belas noites de folia. Ou simplesmente porque era o comboio que me levava a passear com a namorada para uma ou outra metrópole de alguma região. Fosse em que circunstância fosse, poucas foram as vezes (pelo menos de que me recorde – pois a mente prega-nos este truque de omitir o menos bom e deixar permanecer o melhor, por uma questão de sanidade e evolução) em que ao comboio associei sentimentos negativos e ainda hoje, quando regresso a Portugal para um fim-de-semana ou umas férias um pouco maiores, não são poucas as vezes que faço uma viagem num – nem que seja apenas de Caxarias ao Entroncamento. E faço-o sempre com prazer.
No meu ultimo ano em Portugal, para bem ou para mal, os últimos seis meses deram-me a oportunidade de explorar o norte do nosso pais de lés-a-lés. Foram imensos os quilómetros que percorri, sozinho na estrada, acompanhado apenas pela banda sonora que os meus discos me proporcionavam. E escusado será dizer que fui descobrindo uma beleza estrondosa. E muito dessa beleza encontrava-se reflectida nas imensas estações de caminhos-de-ferro desactivados que encontrei, especialmente nas margens do belíssimo Rio Douro. Infelizmente as câmaras dos telemóveis naquela altura não sabiam o que era sequer um megapixel e confesso que não levava máquina fotográfica comigo. As fotos que tirei foram apenas as mentais, mas nelas guardei, em alguns casos, uma beleza estonteante. Ou breathtaking, para manter aqui o uso de estrangeirismos. Há qualquer coisa de sinistro mas belíssimo ao ver uma estação de comboio e as suas linhas a serem engolidas pela vegetação local. É obviamente triste ver um património lindíssimo daqueles naquele estado, mas mantendo o olhar sinistro da coisa, acaba por dar ênfase à minha associação de se viajar no tempo. E hoje, quando olho para trás, quando acabo por viajar no tempo para reviver essas visitas, fica a vontade enorme de poder um dia regressar a esses locais e fazer um roteiro inteiramente dedicado a estes fantásticos objectos, embora desta feita provido de maquinaria fotográfica.
É fascinante olhar para estas obras ao abandono e imaginar a quantidade de vida que um dia tiveram.
Nesta semana, o site do Publico publicou uma foto reportagem na sua secção Fugas precisamente acerca das belas obras arquitectónicas que se encontram estações a fora no nosso pais. E teve o grande condão pessoal de me proporcionar novamente uma viajem ao passado, onde andei acompanhado por belos espécimenes destes. Vale a pena, seguramente, dar uma vista de olhos a este belo património e, quiçá, apanharem também o comboio do passado.
Fotografia via Wikipedia.
Ric Jo, o teu post vai de encontro àquilo que eu, e muitas outras pessoas, sentem quando olham para a imagem que está lá em cima. É algo inexplicável, mas sinto sempre uma espécie de nostalgia quando me deparo com uma estação mais ou menos abandonada. E para ser franco, não passei assim tantos anos da minha vida a andar de comboio.
Quando encontro estas estações, ou só mesmo uma linha abandonada, sou sempre levado a imaginar o tempo em que ainda estava em funcionamento, as gentes que por ali passaram, as modas e os costumes. É uma sensação mesmo muito estranha.
Com estas ideias todas na cabeça, tinha o objetivo de percorrer a linha do Tua a pé, munido da máquina fotográfica. Sem pressas, sem pressões, sem checkpoints definidos. Imagino que seja uma experiencia e tanto. Ainda não foi este Verão, tenha esperanças que o consiga fazer no próximo.
Grande abraço!
Boas,
Ora ai esta’ um belo plano: percorrer o linha do Tua a pe munido de maquina fotografica. Nao me tinha ocorrido ainda a ideia de ligar uma caminhada ao registo (fotografico & sonoro, por exemplo) de um lugar no tempo como e’ a linha do Tua. E agora que despontaste essa ideia, sera com certeza algo a fazer. Tenho um amigo que acabou de restaurar uma casa de serra, perto de Torre de Moncorvo e ja estou a imaginar a coisa. Boa malha 😉
Como bem exemplificas, creio que a ideia do ‘tempo’ estara’ genericamente sempre associado a uma linha de comboio, quer se ande muito ou pouco num. Mas como tambem dizes – e bem – uma estacao levada ao abandono tem a capacidade de provocar nostalgia, mesmo em estacoes com as quais nunca nos tenhamos cruzado na vida. E isso, de facto, nao deixa de ser estranho.
E’ algo sinil, mas nao deixa de ser belo.
Forte abraco!
Aqui está uma boa ideia de negócio, recuperar as estações para albergar os caminhantes. Ainda dizem que Portugal não tem potencial :)))
Ora, nem mais! Haveriam fundos para tal projecto? Só de pensar que se trata de propriedade do estado, dá logo a vontade de nem sequer pensar em coisas do género… 😉
O IAPMEI com FUNDO de Turismo devem ter qualquer programa de apoio, sim são património da REFER. Agora estão vendedores, não sei no entanto se querem já alienar este património. Não deixa de ser uma ideia muito boa para ser explorada !